Queda do juro no Brasil sob risco: como a guerra no Irã pressiona a Selic e repercute no dia a dia do consumidor

Queda do juro no Brasil era a expectativa dominante no mercado financeiro até o início de março, mas a escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã obrigou analistas a recalcular cenários. Com a incerteza externa pressionando o preço internacional do petróleo e abrindo espaço para a retomada da inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reúne-se nesta quarta-feira para decidir se mantém ou altera a Selic, atualmente em 15%, o nível mais alto dos últimos 18 anos.

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A guerra no Irã cria novo obstáculo para a queda do juro no Brasil

O estopim para a reversão de expectativas ocorreu em 28 de fevereiro, quando ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel no território iraniano desencadearam temores sobre o fornecimento global de combustíveis. O barril de petróleo tipo Brent, que vinha sendo negociado abaixo de US$ 80, passou a superar a marca de US$ 100 em vários pregões posteriores. Esse salto de preços afeta tanto países importadores quanto exportadores, pois encarece o custo da energia e eleva, em cadeia, o valor de bens transportados.

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No Brasil, a estatal Petrobras reajustou o preço do diesel para acompanhar a paridade internacional, e o governo federal reduziu tributos na tentativa de amortecer o repasse ao consumidor. A preocupação no Planalto é que a permanência de combustíveis caros provoque aceleração do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice oficial de inflação acompanhado pelo Banco Central.

Como a alta do petróleo interfere na Selic e na inflação

A Selic é o principal instrumento de política monetária usado pelo Banco Central para manter a inflação dentro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Quando os combustíveis sobem, aumentam os custos de transporte e logística, pressionando alimentos, bens industrializados e serviços. Essa cadeia inflacionária reduz o poder de compra da população e pode empurrar o IPCA para fora do intervalo de tolerância, hoje fixado entre 1,5 ponto percentual acima ou abaixo de 3% ao ano para 2026.

Diante desse risco, o Copom tende a ponderar se cortar juros agora ampliaria o consumo em um momento no qual a inflação ameaça acelerar. A eventual manutenção da Selic elevada seria um freio para evitar que a demanda intensifique a pressão de custos.

Expectativas do mercado para a queda do juro no Brasil após o conflito

Antes da eclosão do conflito, casas de análise trabalhavam com corte de 0,5 ponto percentual na reunião de março. Com a nova conjuntura externa, várias instituições reduziram a aposta para 0,25 ponto percentual, e algumas passaram a projetar manutenção da Selic em 15%. Relatório recente de uma grande corretora aponta que, sem confiança plena na desaceleração dos preços, é preferível postergar o afrouxamento monetário para a próxima reunião, prevista para abril.

A revisão de expectativas também apareceu no Boletim Focus, publicação semanal do Banco Central que consolida projeções de mais de cem instituições financeiras. Na edição divulgada na segunda-feira, a estimativa para o IPCA de 2024 subiu de 3,91% para 4,1% em apenas sete dias, enquanto a taxa Selic esperada para o fim de 2026 passou de 12,13% para 12,25%.

O que é a taxa Selic e por que ela guia todas as demais taxas

A Selic, sigla de Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, corresponde ao juro médio das operações de um dia entre instituições financeiras lastreadas em títulos públicos federais. Definida a cada 45 dias pelo Copom, ela serve de referência para empréstimos bancários, financiamentos imobiliários, rotativo do cartão de crédito e aplicações de renda fixa, como Tesouro Direto.

Quando a Selic aumenta, o crédito fica mais caro, o consumo arrefece e a inflação tende a recuar. O movimento oposto, de redução dos juros, estimula empréstimos e, consequentemente, a atividade econômica. Essa lógica é semelhante à adotada pelo Federal Reserve nos Estados Unidos e pelo Banco Central Europeu na zona do euro, ilustrando a prática comum entre autoridades monetárias.

No Brasil, o ciclo em vigor começou em setembro de 2024. Até então, a taxa havia descido de 13% para 10,5% após a pandemia, mas oito aumentos consecutivos levaram o índice ao patamar atual de 15% em junho passado, nível que permanece desde então. É o maior valor desde julho de 2006.

Meta de inflação e o tripé macroeconômico

Adotado em 1999, o tripé macroeconômico brasileiro integra regime de metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal. A meta foi fixada inicialmente em 8% ao ano, mas vem sendo gradualmente reduzida e hoje é de 3% para 2026. O CMN permite variação de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos, configurando intervalo entre 1,5% e 4,5% ao ano.

A partir de 2024, a meta tornou-se contínua: o Banco Central deve mantê-la dentro do intervalo mês a mês. Caso a inflação acumulada em 12 meses permaneça fora da banda por seis meses seguidos, a autoridade monetária precisa divulgar carta pública explicando as razões do descumprimento, as medidas corretivas e o prazo de convergência.

Efeitos práticos da manutenção de juros elevados

A Selic em 15% produz impacto direto no orçamento de famílias, empresas e governos:

1. Financiamentos mais caros. Compras de longa duração, como imóveis e veículos, encarecem porque as parcelas embutem juros maiores. O mesmo vale para o rotativo do cartão de crédito.

2. Menos investimento produtivo. Empresas adiam projetos de expansão diante do custo elevado de capital, o que limita a geração de empregos e renda.

3. Pressão sobre as contas públicas. O governo financia parte de seus gastos emitindo títulos. Juros mais altos aumentam a despesa com serviço da dívida.

4. Rentabilidade da renda fixa. Aplicações como Tesouro Selic e CDBs oferecem retorno superior à inflação, beneficiando quem consegue poupar.

5. Aumento de desigualdade. Famílias de menor renda, sem instrumentos de proteção financeira, sofrem mais com inflação e com o encarecimento do crédito, enquanto poupadores são remunerados com taxas reais positivas.

Cenários para a queda do juro no Brasil e calendário do Copom

O Copom informou em janeiro que, “se o cenário esperado se confirmasse”, iniciaria a flexibilização monetária na reunião de março. Como o cenário mudou, a autoridade monetária agora avaliará a dimensão e a duração do choque de petróleo antes de retomar cortes na Selic. Os diretores precisarão ponderar:

• Persistência da alta do combustível. Se o preço do barril recuar nas próximas semanas, a pressão inflacionária pode arrefecer, abrindo espaço para redução dos juros em abril.

• Reação do IPCA. O índice de preços de março e abril indicará se a transmissão da alta do óleo diesel para outros itens foi significativa.

• Desempenho da atividade econômica. Dados de produção industrial, varejo e mercado de trabalho ajudarão a medir o fôlego da demanda interna.

No momento, o consenso entre analistas é que a primeira oportunidade efetiva para a queda do juro no Brasil foi adiada, mas não cancelada. O encontro seguinte do Copom está agendado para o fim de abril, quando novos dados de inflação, atividade e evolução do conflito no Oriente Médio permitirão julgamento mais embasado sobre o início ou não do ciclo de afrouxamento monetário.

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