Regime do Irã resiste após morte de Khamenei: entenda a estrutura que dificulta sua derrubada

Regime do Irã é sinônimo de longevidade política no Oriente Médio. Mesmo abalado pelos ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel que mataram o aiatolá Ali Khamenei e destruíram infraestrutura estratégica, o sistema iraniano permanece de pé e já substituiu o líder supremo pelo filho, Mojtaba Khamenei. Especialistas apontam que a arquitetura de poder criada desde a Revolução de 1979 foi desenhada precisamente para suportar choques dessa magnitude.

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A anatomia institucional que sustenta o regime do Irã

Quase meio século depois de destronar a monarquia, a República Islâmica construiu um arranjo político comparado por estudiosos a uma “Hidra”. O paralelo com a criatura mitológica de múltiplas cabeças descreve como, ao se eliminar um dirigente, outros emergem sem comprometer o conjunto. O pesquisador Sébastien Boussois vê nesse desenho a combinação de quatro pilares: instituições fortemente controladas, doutrinação ideológica, coesão das elites e fragmentação da oposição.

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Essa manufatura deliberada envolve a partilha de autoridade entre órgãos clericais, forças armadas paralelas e setores econômicos estratégicos. O resultado é um poder distribuído, ou, nas palavras do geógrafo Bernard Hourcade, uma “poliditadura”, aliança entre islamismo político e nacionalismo iraniano. Diferentemente de ditaduras personalistas, o sistema dilui responsabilidades, tornando-o menos vulnerável a colapsos decorrentes da perda de um único chefe.

Regime do Irã: Conselho dos Guardiões e o filtro político permanente

Entre as engrenagens mais influentes está o Conselho dos Guardiões, órgão encarregado de vetar leis aprovadas pelo Parlamento e de escolher quem pode ou não concorrer nas eleições. Mesmo existindo pleitos presidenciais, os candidatos precisam demonstrar lealdade irrestrita à República Islâmica para superar essa triagem. O mecanismo garante aparência de participação popular sem ameaçar a continuidade do projeto revolucionário.

A filtragem sistemática restringe as chances de uma corrente reformista chegar às urnas com força suficiente para disputar o Executivo. Assim, mesmo quando há contestação social expressiva — como durante o Movimento Verde de 2009 ou nos protestos desencadeados pela morte de Mahsa Amini em 2022 — a via institucional para mudança profunda permanece bloqueada.

Guarda Revolucionária: espinha dorsal militar e econômica do regime do Irã

Se as instituições formam o esqueleto, o músculo é o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI). Criada para proteger a revolução, a força atua paralelamente ao exército regular e, segundo Bernard Hourcade, constitui a “espinha dorsal” do Estado. Sua influência vai além do campo militar: a Guarda controla programas de mísseis e drones, dirige a milícia Basij e administra um vasto império empresarial, cujo principal braço é o conglomerado Khatam al-Anbia.

O vice-ministro da Defesa, Reza Talaeinik, revelou que cada comandante possui substitutos designados até três níveis abaixo, o que assegura continuidade operacional. Para Kasra Aarabi, da organização United Against Nuclear Iran, essa estrutura descentralizada foi aprendida com o colapso repentino das forças iraquianas em 2003. A lição assimilada pelo Irã foi simples: evitar concentração que permita a paralisia total em caso de perda de líderes-chave.

Redes de patronagem e a coesão das elites que blindam o regime do Irã

Grande parte da economia nacional está nas mãos de entidades estatais ou semicontroladas. Um exemplo são as bonyads, fundações de caridade que, ao longo das décadas, acumularam milhares de empresas nos mais variados segmentos. Por meio delas, empregos, contratos e subsídios são direcionados a grupos alinhados ao projeto revolucionário, reforçando o sentimento de pertença entre as elites.

O vasto portfólio empresarial da Guarda Revolucionária opera de maneira semelhante, transformando-a não apenas em força de segurança, mas também em ator corporativo dominante. Mesmo sob duras sanções internacionais, essas redes absorvem os impactos econômicos e mantêm os principais beneficiários fiéis ao sistema. Para Boussois, a solidez dessa engrenagem se traduz em baixíssimos índices de deserção entre altos quadros civis ou militares.

Regime do Irã diante de uma oposição fragmentada e vigiada

A durabilidade do Estado também se explica pela falta de um bloco opositor unificado. Reformistas, monarquistas, grupos de esquerda, movimentos étnicos e a diáspora — representada por organizações como o Conselho Nacional de Resistência do Irã — raramente convergem em torno de uma estratégia comum. Ellie Geranmayeh, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, lembra que o país entrou em guerra com o Iraque logo após a revolução, congelando o debate sobre partidos políticos.

Ao longo do tempo, lideranças moderadas foram marginalizadas, desacreditadas ou presas, tanto pelo governo quanto por facções linha-dura. Quando irrompem manifestações, elas carecem de liderança centralizada e enfrentam repressão ágil. O aparato de segurança opera um dos sistemas de vigilância mais sofisticados da região: cortes de internet, monitoramento por Inteligência Artificial e unidades cibernéticas que perseguem ativistas inclusive fora do território iraniano.

Cautela popular, fissuras geracionais e os limites da resistência

Por anos, grande parcela da sociedade hesitou em apostar numa derrubada violenta, observando os resultados das intervenções externas no Afeganistão e no Iraque. A decepção com a Primavera Árabe reforçou essa precaução coletiva. Contudo, segundo Geranmayeh, o cálculo começou a mudar: a percepção de que o Estado não garante mais necessidades básicas — de empregos a água potável — cresce na mesma medida em que a repressão se intensifica.

A brutalidade demonstrada em janeiro, quando milhares de manifestantes foram mortos, acelerou essa transição psicológica. Além disso, Hourcade identifica um “fosso geracional”: jovens educados, conectados à internet e expostos a referências globais consideram o regime “corrupto e irrelevante” para suas expectativas. Essa tensão etária pressiona a estrutura, mas ainda não produziu fraturas decisivas entre as elites nem deserções substanciais nas forças de segurança.

Três condições para a queda e os cenários futuros

Analistas que investigam a queda de regimes autoritários apontam três variáveis simultâneas: mobilização popular maciça, cisões entre os que governam e deserções nos aparelhos de segurança. No caso iraniano, a primeira condição ocorreu repetidamente; as outras duas ainda não se materializaram. Para Hourcade, a morte de Ali Khamenei foi um golpe considerável, pois nenhum sucessor deverá possuir seu nível de autoridade. Mesmo assim, ele frisa que o fim da República Islâmica não é iminente; depende da “cronologia”.

Boussois pondera que a continuidade não está garantida, mas, se houver intervenção militar estrangeira, o resultado pode fortalecer o núcleo duro, como visto em Cuba ou na Coreia do Norte. A escolha de Mojtaba Khamenei para a liderança máxima indica, até o momento, a manutenção da linha dura adotada pelo pai.

O próximo ponto crítico no calendário político do país será o início formal do mandato de Mojtaba Khamenei, ocasião que testará a capacidade das instituições, da Guarda Revolucionária e das elites econômicas de manter o regime do Irã coeso perante novas pressões internas e externas.

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